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Claudete relembra vida no futebol e "empurrão" para Renata Fan na Record

UOL Esporte

17/11/2017 04h00

Atualmente Claudete Troiano comanda o Santa Receita, na TV Aparecida (Divulgação)

Quando a jovem Claudete Troiano, com menos de 18 anos, entrava em campo como repórter para entrevistar jogadores após as partidas de futebol ou narrava jogos pela Rádio Mulher, nos anos 70, não imaginava que relataria as histórias, os perrengues, as amizades e os casos de machismo vividos no jornalismo esportivo até hoje. Para a atual apresentadora da TV Aparecida, a entrada no esporte daquela equipe só de mulheres abriu as portas para outras até nos dias atuais.

Apesar de ainda ver as dificuldades da mulher no meio do futebol, Claudete Troiano ressalta que o talento e a força feminina se sobressaem ainda mais hoje em dia e cita o exemplo de Renata Fan, a quem deu um empurrãozinho informal para que ganhasse mais espaço quando a loira ainda era assistente de Milton Neves na Rede Record, no começo dos anos 2000. O motivo: via talento na apresentadora da Band.

"Na Record eu falei muito com o Milton Neves: 'tem que botar a Renta Fan pra falar. A Renata conhece, manja muito de futebol'. Porque me incomodava a figura feminina nos programas esportivos só como uma figura bonita mesmo. E com a mulher com tanta capacidade", relembrou Claudete.

Claudete falou com Milton Neves por mais espaço para Renata Fan (Divulgação)

Esse papel de falar pela mulher no mundo do futebol é uma atitude de quem já precisou se provar bastante nesse meio repleto de homens jornalistas, cronistas, jogadores, técnicos, torcedores. Claudete Troiano contou um pouco de como foi ser uma das pioneiras nas quatro linhas.

"Davam informação errada para ver se a gente embarcava"

Claudete recordou que tinha que checar as informações mais ainda, porque sofria pegadinhas dos colegas homens. "Eu lembro que passavam informação furadas e soltavam no estádio pra ver se embarcávamos nela. Então tinha que ficar atenta duplamente".

O incentivo de Pelé e de gringos

"A gente narrava no ritmo masculino. O que chamou muito mais atenção, além do Pelé, que foi um cara que sempre incentivou, eram os cronistas esportivos de fora. Os brasileiros tinham um pé atrás. Mas fomos homenageadas anos depois".

A liberdade de falar de assuntos extracampo

A apresentadora ressalta: não eram maltratadas, mas sofriam com as dúvidas. No entanto, ela via o lado bom de tudo isso. "De repente entrou uma equipe de jovens, todas mulheres no campo. Na época o Faustão era repórter de campo, o J Hawilla, o Wanderley Nogueira. Eles ficavam desconfiados: 'ih, elas não sabem de nada'. Mas a gente sabia e tinha uma vantagem: porque poderia falar coisas assim: 'Leão, o jogador com as pernas mais bonitas; E aí, Levinha?! Cortou o cabelo? Você passa o que no cabelo pra ficar com reflexo'? Eles não perguntavam isso", contou.

Proibidas de entrar nos vestiários

A equipe da Rádio Mulher da qual Claudete fazia parte era toda feminina. Da motorista que as levava ao estádio, passando pela técnica de som, narradoras e as repórteres. Na hora de colher as informações após os jogos, esbarravam em uma proibição: não tinham acesso aos vestiários.

"A primeira a entrar no vestiário foi a Regiani Ritter, da Gazeta. A gente não entrava. Os jogadores saiam e informação quente era conseguida no vestiário. Agora não…eles dão entrevista depois que esfriou a cabeça. Antigamente tirava informação naquele momento, com a cabeça quente. A gente entrava? Não, proibidas", relatou.

Levava jogadores ao salão de beleza e o chá de camomila

E Claudete ficava amiga dos jogadores. Vaidosos, os atletas pediam a então repórter dicas para turbinar o black power. "Muito jogador fez permanente na minha cabeleireira. Naquela época se usava black power, só que temos e tínhamos bons jogadores negros e o cabelo é enroladinho, mas não fica tão solto por mais que se use aqueles pentes, não fica solto. Se descobriu que no cabelo afrodescendente se fizesse permanente soltava o cabelo e com o pente, penteava e entrava com uma baita cabeleira em campo. Jogador de futebol adora penteado. Eles viram o cabelo do meu irmão, viram que eu tentei no meu (enrolar), me perguntaram e foram. Fez sucesso o cabelo black power. Eu me lembro do Zé Carlos, do São Paulo; o Mirandinha do Corinthians (década de 70)", recordou Claudete rindo.

Também pediu à mulher de Leivinha (foto à esquerda) a receita dos belos cabelos loiros do ex-jogador. "A esposa que me contou que ela lavava o cabelo dele com chá de camomila, quem tem cabelo loiro faz isso. Faz o chá e passa no cabelo um pouco úmido e vai pro sol. Ela me contou, porque o cabelo dele era lindo, maravilhoso. O cabelo dele era moderno e loiro que brilhava, uma loucura. Era o chá de camomila. Imagina algum homem falando disso? Mas por ser mulher eu podia e podia falar se ele jogou bem ou mal".

"Gostosa": os gritos da torcida

"Quando eu ficava na reportagem eu ficava dentro de campo e rolava grito de torcedor sempre que eu entrava, eu ouvia, depois eu não queria nem saber. Colocava o fone e dane-se o que falavam, estou nem aí. Mas quando eu entrava eles assobiavam, gritavam gostosa…".

"O machismo não era falado, mas era sentido"

"Não era falado, mas era sentido. A mulher sabia. Mulher sempre ouviu: vai lavar roupa, quando estava dirigindo. Quando tinha uma família e a mulher ia assumir a empresa, também se duvidava dela. Não era totalmente aberto, mas também não era fechado. Foi falado pra gente pelos profissionais que criaram a equipe: vai ser diferente, mas é profissionalismo".

Amizade e namoro com jogador

"Eu ficava amiga. E até hoje tenho amizade com alguns que me ligam e falam. Foi uma fase muito rica. Tinha xaveco, mas era de boa. Jogador em campo falava palavrão e pedia desculpas quando nos via. Eles xavecavam, mas era aquela coisa carinhosa. A gente ficava amigo, eu conhecia a mãe, conhecia as esposas e ou entrava na paquera ou não, mas eram coisas muito bobinhas e inocentes. Eu estive num ambiente super masculino, cheguei a ter namorinho, mas me casei, tenho minha vida. Você faz o seu ambiente também".

Karla Torralba
Do UOL, em São Paulo

 

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