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Narrador da ESPN conta como o 7 a 1 miou seu pedido de casamento

UOL Esporte

09/10/2014 06h00

A goleada sofrida pelo Brasil diante da Alemanha durante a Copa do Mundo continuará na memória dos brasileiros durante muitos anos. Mas, para um narrador em especial, a data ficará marcada por outro motivo além do futebol. Everaldo Marques, mais conhecido por ser a voz dos esportes americanos no canal de TV ESPN, pretendia fazer uma surpresa importante para a mulher, Iane, no dia do seu aniversário, 9 de julho. Porém, acabou escalado para trabalhar justo nessa data, durante a semifinal entre Holanda e Argentina, e teve de apressar os planos.

"Somos casados há seis anos, mas não tínhamos trocado as alianças. Em março, eu decidi que ia fazer uma surpresa no aniversário dela, chamar os amigos e fazer esse momento com eles. Nunca achei que minha Copa iria chegar até o dia 9 de julho, na segunda semifinal da Copa", admitiu Everaldo ao UOL Esporte. Até então, ele havia narrado no máximo quartas de final em Mundiais. "Só que, três dias antes do aniversário dela, fui escalado. Pensei 'Que legal, vou fazer uma semifinal de Copa do Mundo! Mas e agora, como faço com a surpresa?'"

A solução foi adiantar os planos para o dia anterior, de Brasil e Alemanha, chamando os amigos com a desculpa de assistirem na casa dele ao jogo da seleção. Inicialmente, Everaldo pensou em fazer a surpresa antes da partida, caso o Brasil perdesse. Só que os amigos chegaram em cima da hora, apenas poucos minutos antes do jogo, e o narrador teve de esperar e mudar de planos novamente. "Pensei 'Bom, vou esperar o fim da partida, afinal de contas, o Brasil vai ganhar'. E aí foi aquele 5 a 0, todo mundo para baixo… Pensei então que iria mudar aquele clima e perguntei se a Iane queria se casar comigo. Tirei a caixinha na frente de todo mundo e coloquei a aliança nela", lembra.

Essa foi mais uma entre várias vezes que Everaldo e a mulher tiveram de driblar a rotina e improvisar, especialmente desde que o filho, Guilherme, nasceu. Por narrar esportes que seguem o fuso horário dos Estados Unidos, Everaldo muitas vezes só chega em casa no meio da madrugada. "Já aconteceu de minha mulher me avisar que estava colocando o Guilherme para dormir, e eu ter que esperar na garagem de casa, senão ele me vê e desperta". Embora nesse caso perca um momento com o filho, o narrador não se entristece. "Faz parte, estou colaborando para que ele durma. Quando chego, vejo ele dormindo", conta o narrador, que mudou a rotina de trabalho para garantir que o tempo passado com a família seja o melhor possível.

"Antes, eu me preparava mais para as transmissões em casa, e deixava para chegar na TV em cima da hora. Depois que ele nasceu, ficando em casa eu não conseguia nem focar direito no trabalho, nem dar atenção para ele. Decidi mudar". Agora, Everaldo evita ao máximo levar tarefas para o lar, e chega na redação bem antes, para se focar apenas na preparação para os jogos. "Posso não ter tanto tempo quanto eu gostaria com eles, mas é um tempo de qualidade. Não corro o risco de não ver meu filho crescendo", garante.

A mulher de Everaldo também ajuda a manter a proximidade da família. Em 2012, durante os Jogos Olímpicos, ela fez uma surpresa para o marido. "Eu realizei um sonho de infância, narrar Olimpíadas in loco. Mas meu filho ia completar cinco meses e eu sabia que não daria para estar perto dele no meu primeiro dia dos pais", relata. Sem Everaldo saber, Iane fez uma camiseta com uma foto do filho, vestido com um quimono e uma medalha, com a legenda "Papai vale ouro". A cena era uma referência a um dos episódios que mais o marcaram em Londres: pela primeira vez, ele narrou um evento que culminou em uma medalha brasileira, o bronze de Mayra Aguiar no judô, e que o marcou muito.

Com a ajuda dos colegas de Everaldo na ESPN que cobriam os Jogos, Iane enviou o presente para a Inglaterra. "Cheguei para trabalhar na sexta-feira, antes do dia dos pais, e vi uma caixa. Olhei o nome do remetente e estava 'Guilherme'. Abri o pacote tremendo, e quando vi a camiseta comecei a chorar. A redação inteira veio me abraçar, só eu não sabia", relembra, emocionado. "Tenho essa camiseta até hoje, e enquanto ela não desbotar totalmente, não vou me desgrudar dela".

Everaldo precisa driblar a rotina de narrador até para comemorar o aniversário de casamento. "É no dia 1º de fevereiro, então sempre cai em época de Super Bowl", explica. O evento é a final da temporada do futebol americano na NFL, e o desta temporada 2014/2015 será justamente no dia 1º de fevereiro. "Eu não pensei que isso ia acontecer, a gente casou no ano que a ESPN não tinha os direitos. Em quase todos os anos, a gente não está perto". Everaldo viaja para os Estados Unidos para cobrir o evento in loco. "Aí mando presente sem ela saber, e no dia chega uma cesta de café da manhã ou outro tipo de presente. Mas a gente não se prende a isso, não deixa de desfrutar e aproveitar o momento", garante.

"Fuso horário trocado"

A temporada 2014/2015 da NFL começou no dia 4 de setembro, e por enquanto os jogos não terminam tão tarde como quando ficam próximos ao Super Bowl. "A partir de novembro, a diferença de horário entre Brasil e Estados Unidos aumenta e tudo começa mais tarde. Meu relógio biológico apanha um pouco nessa época", brinca. "Faço NBA um dia por semana, e NFL de quinta, domingo e segunda. Acabo saindo às 2h, 3h da manhã e não é só acabar o jogo que levanto e vou embora". Às vezes, Everaldo continua na ESPN até uma hora depois do fim do jogo, assistindo às entrevistas dos jogadores ou conversando com o comentarista Paulo Antunes, companheiro de transmissões.

Everaldo conta que é difícil dormir após um jogo empolgante, até a adrenalina diminuir. Na época em que a mulher cursava veterinária, houve vezes em que ele até esperava ela acordar para tomar café da manhã, e só dormia depois. "Em três ou quatro noites durmo tarde, e nas outras três posso dormir no horário normal. Mas como você consegue isso? Bate a insônia, principalmente nessa parte final da temporada. Não dá para virar uma chave para um fuso horário e voltar dia sim, dia não", explica.

Muitas vezes, Everaldo fica acordado enquanto a mulher e o filho dormem, e vice-versa. "Fico com o fuso horário trocado em relação à casa". Essa será a primeira temporada que ele trabalhará com Guilherme na escola. "Ele vai entrar de manhã, e eu com esse fuso meio doido. Não sei ainda como vai ser, se vou levar após o jogo ou buscar ele à tarde e ficar um pouco com ele antes de trabalhar", imagina.

Bordões

Os jogos que terminam na madrugada justificam o bordão mais famoso de Everaldo, "Dormir é para os fracos", que costuma ser bastante tuitado pelos fãs do esporte, que já levaram hashtags das transmissões muitas vezes aos trending topics do Twitter. Everaldo também é lembrado pelo "Bingo!" na hora das cestas, ou do "Vai!" para gols. Apesar disso, o narrador diz que não tem bordões.

"Eu não acho que seja necessário ter bordão para lembrarem de você", opina. "Luciano do Valle e José Silvério, os maiores caras de TV e rádio que já acompanhei, são históricos sem ter bordão nenhum". A ideia de Everaldo, seguindo seus ídolos, é não passar horas pensando em expressões, e usar o que lhe surge na hora.

Foi assim que acabou usando o "Taca-le pau" nas últimas semanas, em referência ao meme do garoto Leandro Beninca. "Eu estava indo para uma transmissão, e ouvi no rádio umas três vezes o comercial do Grande Prêmio de Fórmula 1 com ele. Pensei 'Quer saber? Na hora que um cara der uma disparada no jogo, vou mandar essa'. Mas é um meme, todo mundo fala, coisa de domínio público", explica. Everaldo ainda não sabe se vai continuar com o "Taca-le pau", e acha que outros memes podem render em suas transmissões no futuro. "Mas não tenho nada planejado", garante. E se tivesse, como o 7 a 1 mostrou meses atrás, ele também seria capaz de mudar na hora.

Camila Mamede
Do UOL, em São Paulo

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