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Chico Silva: Globo vai bem com Brasil e comentarista, mas faltou narradora

Chico Silva

2020-06-20T19:04:00

20/06/2019 04h00

Demonizada por alguns, ironizada por outros e clichê para muitos, a expressão "nunca antes na história desse país" ganhou sobrevida na Copa do Mundo de Futebol Feminino da França. E com sentido. Foi a maior cobertura jornalística já feita pela imprensa brasileira desde a primeira edição do torneio, realizada na China, em 1991. O campeonato está sendo transmitido por três canais: Globo, Sportv e Band. Mas a grande novidade foi a entrada da maior emissora do país no jogo.

Pela primeira vez, a Globo transmite jogos de futebol feminino em sua grade fora das Olimpíadas. A estreia brasileira contra a Jamaica teve até a voz de Galvão Bueno. Mas, a não ser que o time consiga algo improvável e ir à final, deve ter sido a única participação do número 1 da Globo no Mundial. Com a concorrência direta da Copa América, que ainda está sendo realizada no Brasil, a emissora escalou sua maior estrela para narrar os jogos da Seleção de Tite. Com isso, o time feminino teve Cleber Machado narrando a derrota para Austrália e Luís Roberto, a vitória sobre a Itália – que classificou o Brasil para a segunda fase.

Golaços

O ponto alto da cobertura foi a estreia da jornalista Ana Thaís Matos como a primeira mulher a comentar uma partida de futebol na principal emissora do País. Ex-repórter de veículos como Lance!, BandSports e Rádio Globo, a jornalista começou a conquistar seu lugar no Mundial ao participar do Troca de Passe especial da Copa do Mundo da Rússia, no ano passado, no Sportv. Desde então, só ganhou espaço na casa.

No começo do ano, quando virou comentarista fixa do canal, passou no teste que faltava para se tornar a escolha óbvia para a função de analisar as partidas da seleção de Marta, Cristiane, Formiga e cia. Na estreia, dividiu a "cabine" com Galvão e Caio Ribeiro. A derrapada na largada ficou por conta do colega homem, que elogiou os atributos estéticos, não técnicos, da meia Andressa Alves. O comentário gerou várias "cornetadas" para Caio nas redes sociais. Agora, é ficar de olho para ver se a Globo a efetiva no seu time fixo de comentaristas ou se Ana Thaís vai voltar a fazer suas análises apenas no Sportv.

Outro ponto que merece elogios é a cobertura além dos jogos. A Globo abriu espaço nobres para reportagens especiais com as histórias, desafios e dramas das mulheres que quebraram barreiras e preconceitos para calçar chuteiras e correr atrás de uma bola de futebol. A trajetória de Marta, que com o gol contra a Itália superou o alemão Miroslav Klose e se tornou a maior artilheira de todas as Copas, foi tema de um "Globo Repórter" pilotado por Tino Marcos.

A maior artilheira dos Mundiais também teve voz no "Fantástico", quando em entrevista a repórter Carol Barcellos falou da sua luta diária contra a diferença de tratamento de homens e mulheres no esporte mais praticado do mundo. Houve também uma série de três matérias especiais exibida pelo "Esporte Espetacular" antes do início do torneio e outras reportagens menores no Globo Esporte, como a que a repórter Júlia Guimarães, notória boleira fora das telas, jogou com as meninas do time do Corinthians. Isso sem falar nas aparições da banda Didá, de Salvador, uma espécie de Olodum feminino; nos links ao vivo da casa das jogadoras no "Show do Intervalo" e a criação da eguinha que entrou para o famoso quadro apresentado por Tadeu Schmidt no "Fantástico".

Por último, não podemos esquecer da cobertura in loco do canal na França. A Globo enviou uma equipe com 10 profissionais para acompanhar cada passo das meninas do Brasil em território francês. A estrela da cobertura é Carol Barcellos, experiente profissional com passagens pela apresentação do "Globo Esporte RJ", "Esporte Espetacular" e famosa pelas reportagens radicais no "Planeta Extremo". Barcellos foi escalada para as reportagens de campo dos jogos da Globo.

A equipe ainda conta com as jornalistas Amanda Kestelman e Lizandra Trindade, que se revezam na produção de conteúdo para Globo, Sportv e o site globoesporte.com. Claro que ainda não dá para comparar com as centenas de profissionais que o Grupo Globo envia para as coberturas de uma Copa do Mundo masculina. Mas, apesar de tardio, é um bom começo.

Caneladas

Um dos aspectos negativos foi o fato de a emissora só transmitir partidas da seleção brasileira, algo que não ocorre no mundial dos homens. É óbvio que a audiência não seria a mesma das partidas dos times masculinos. Mas, de qualquer forma, seria uma demonstração de respeito pelo torneio.

A postura foi alvo de críticas nas redes sociais. E com certa razão, pois evidenciou a diferença de tratamento da emissora para os dois eventos. Claro que não estamos sugerindo que a Globo exibisse todas as partidas, pois o esporte não se encontra num estágio de desenvolvimento no país para gerar tal interesse. Que mostrasse, ao menos, os principais confrontos, como um Alemanha x Espanha e Inglaterra x Argentina, algo que a Band fez por exemplo. Até anteontem, a emissora paulista havia exibido nove jogos do Mundial. E não custa lembrar que são duas emissoras de TV aberta e rede nacional.

A ausência de narradoras e analistas de arbitragem também foi alvo de críticas das redes sociais. A Globo não tem mulheres nas funções. Mas, nesse caso, a "responsabilidade" precisa ser dividida. É fato que não há incentivo e estímulo para que surjam "Galvões e Clebers" de saias nas transmissões. Porém, havia no Grupo Globo alguém que poderia encarar a missão: Glenda Koslowski.

A apresentadora foi pioneira na narração de competições esportivas na Globo nos Jogos Rio 2016. Narrou provas de ginástica artística. Mas a inexperiência na função, aliada ao machismo explícito das redes, gerou uma onda de críticas. Isso derrubou de vez qualquer pretensão de Glenda para se aventurar em outros campos como o futebol. Uma pena, pois com isso ela desperdiçou a chance de fazer história e formar a primeira dupla de narradora e comentarista da história da TV brasileira. Ficou para a próxima.

E quem sabe seja aqui no Brasil. O país é um dos nove postulantes à sede do Mundial de 2023. Com isso a emissora terá quatro anos para formar e preparar a primeira locutora de futebol da história do canal.

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