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“Mesaredondização” da TV paga: são 18 programas por semana no mesmo formato

Chico Silva

28/03/2019 12h00

Quem consome conteúdo esportivo em TV paga já se acostumou com elas. Estão em todos os canais, horários e dias. São 18 ao longo da semana, mudam de nome, cenário, estilo, mas a essência é a mesma desde que Nelson Rodrigues, João Saldanha, Armando Nogueira e Luiz Mendes criaram e popularizam o formato mesa-redonda nos anos 60 na extinta TV Rio com a icônica Grande Resenha Facit.

A proposta é relativamente simples. Comentaristas se reúnem para analisar e debater gols, lances, fatos e notícias do mundo do futebol. Não é exagero afirmar que os programas de debates se tornaram o carro-chefe das emissoras esportivas pagas brasileiras. Todas têm mais de duas em sua grade diária de programação. Mas o que justifica essa overdose de atrações desse tipo espalhadas pela grade das TVs por assinatura?

A primeira conclusão, até meio óbvia, está relacionada ao custo. É mais vantajoso para os canais rodar seu elenco do que adquirir direitos de transmissão de futebol, que estão cada vez mais caros e concorridos com a entrada de novos players digitais, como DAZN, Facebook e Live F.C. E o investimento em eventos de outros esportes não é garantia de boa audiência. É menos arriscado usar e abusar das estrelas da casa do que investir na compra de um torneio de tênis, basquete (menos NBA) ou de qualquer outra modalidade. É mais barato e tem melhores resultados de audiência.

Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e o resto

Troca de Passes, transmitido no pós-rodada

Em relação ao conteúdo a variação é pequena. Geralmente, os assuntos debatidos mudam pouco. O cardápio costuma privilegiar os clubes com maior torcida e que, consequentemente, geram mais audiência. Um exemplo claro disso se viu na última sexta-feira. O Fla-Flu do final de semana no campeonato carioca foi um dos temas dominantes das mesas daquele dia.

À exceção do Expediente Futebol da Fox, houve clara preferência pelo Rubro Negro. O Flamengo ocupou 70% da quase uma hora dedicada ao clássico mais charmoso do Brasil no Bate-Bola Debate da ESPN Brasil. Há o desconto de que o noticiário do clube da Gávea estava mais quente, com o anúncio do novo patrocinador máster e da nova camisa do time. Mas ainda assim o desequilíbrio foi considerável. Para o Fluminense restou a discussão sobre se o técnico Fernando Diniz deveria ou não poupar jogadores, pois o time havia jogado na véspera no Chile pela Copa Sul-Americana.

Flamengo e o trio de ferro paulista dominam a cena nas mesas-redondas. Grêmio, Cruzeiro e Vasco vem na sequência no ranking do interesse. Os outros grandes se revezam dependendo de algo que chame a atenção no seu noticiário, como contratação de jogador, demissão de técnico ou notícia de atraso de salário. Outros esportes só se nascer um novo Ayrton Senna ou o Brasil for campeão mundial. E olhe lá.

Bate Bola Debate, da ESPN Brasil, que ocupa a hora do almoço

O espaço dedicado a cada assunto é, ao mesmo tempo, o vício e a virtude desse formato de programa. Se é possível esmiuçar um tema à exaustão oferecendo ao assinante diversas visões e opiniões a respeito dele, há também o risco de tornar a discussão chata e repetitiva. Outro fator recorrente é a dispersão. Como têm longa duração, é comum ver os comentaristas mudando de assunto sem concluí-lo ou se perder em piadas e outras gracinhas que nada tem a ver com o objeto da análise.

O programa campeão nesse quesito é o Fox Sports Rádio. Comandado por Benjamin Back, é de longe o que mais perde tempo com discussões sem muito sentido, vídeos de WhatsApp, muitos deles incompreensíveis, inúmeros e desnecessários "Benjaaaaaaa" a cada mensagem lida de telespectador e intermináveis piadas e pilhérias com Felipe Facincani, o Pipinho, alvo predileto das brincadeiras da mesa. Até os experientes Fábio Sormani e Oswaldo Pascoal acabam se deixando contaminar pelo clima anárquico e debochado da atração. Líder de audiência no horário do almoço, é prova que o estilo do programa agrada em cheio à molecada que chegou do colégio após as aulas da manhã.

Uma tendência que se consolidou, e há tempos, é espaço dedicado aos eventos exclusivos de cada emissora. Nessa mesma sexta-feira o Expediente Futebol da Fox exibiu uma entrevista ao vivo com Lisca "Doido", técnico do Ceará. A conversa se estendeu por 22 minutos, mais tempo que o dispensado ao noticiário dos grandes clubes naquele dia.

Expediente Futebol, da Fox Sports, exibido no fim de tarde/início de noite

Por que um time fora dos grandes centros do futebol brasileiro teve tanta atenção de estrelas como Edmundo, PVC, Eugênio Leal, Leandro Quesada e João Guilherme? Era a Fox colocando na vitrine um de seus novos produtos de 2019: a Copa do Nordeste. Com o fim do Esporte Interativo, o canal assumiu os direitos da Lampions League.

Na mesma linha, o último bloco do Bate Bola Debate da ESPN Brasil foi quase que inteiro dedicado à apresentação ao jogo entre Milan Glorie e Liverpool Legends, amistoso comemorativo que reuniu veteranos dos dois grandes clubes europeus que se enfrentaram nas finais da Liga dos Campeões de 2005 e 2007. O evento foi transmitido pelo canal no sábado passado.

As Super-Mesas

Baita Amigos, da Band Sports, todas as segundas-feiras à noite

Fora a overdose dos debates diários há também os especiais. Ou as super-mesas-Redondas. As duas mais famosas são o Bem Amigos, no Sportv, e o Baita Amigos, no BandSports. Não por acaso, são comandadas pelas duas principais estrelas das casas.

No ar desde 2003, a atração do canal Globosat tem à frente Galvão Bueno. A da emissora de esportes do Grupo Bandeirantes é comandada pelo explosivo e controverso ex-jogador Neto. O conceito dos dois é o mesmo. Estrelas da casa debatem com convidados do esporte. Mas as semelhanças param por aí. Se Galvão e seus substitutos Luís Roberto, Milton Leite e Luiz Carlos Jr. quase sempre conseguem levar nomes de peso do primeiro escalão, a atração da Band segue o modelo do programa exibido na TV aberta, o Jogo Aberto.

Por lá aparecem convidados nem sempre tão conhecidos, mesmo da audiência boleira, e que de preferência tenham jogado em Corinthians ou Guarani, times em que o ex-camisa 10 fez história. Há um caráter filantrópico nessa "opção", pois em muitos casos são ex-jogadores, técnicos e boleiros fora da vitrine que precisam daquela visibilidade para conseguir contratos ou emprego em clubes de menor expressão.

Com ou sem estrelas, engraçadas ou pedantes, interessantes ou cansativas, as mesas-redondas são uma febre na programação esportiva brasileira. E assim devem continuar por muito tempo.


Todas as mesas da TV Paga

Sportv

  • Redação (09h45/12h)
  • Seleção 12h45/16h)
  • Troca de Passes (Pós-Rodada)
  • Bem, Amigos! (segundas-feiras, 22h/00h30)

ESPN Brasil

  • ESPN Bom Dia (09h/12h)
  • Bate Bola Debate (12h30/15h30)
  • Futebol na Veia (18h/20h30min)
  • Linha de Passe (segundas 22h/0h e pós rodadas de domingo e quarta-feira)

Fox Sports

  • Bom Dia Fox (09/11h15)
  • Fox Sports Rádio (12h45mi/15h30mi)
  • Expediente Futebol (17h30/20h)
  • Debate Final Fox (21h/23h *menos segundas-feiras e em noites com jogos transmitidos pelo canal)
  • A Última Palavra (domingos 22h/0h)

Bandsports

  • BandSports News Debate (14/16h)
  • Bola Rolando (17h30/19h30)
  • Sala do Esporte (23h/01h)
  • Baita Amigos (segundas, 20h/22h)
  • Depois do Jogo (domingo pós-rodada)

*Essa crítica é uma homenagem a Roberto Avallone, jornalista e colunista do UOL Esporte que fez da Mesa Redonda dominical da TV Gazeta um ícone desse formato de programa no final do século XX. Avallone morreu no último dia 25 de fevereiro.

Chico Silva é jornalista com passagens por veículos como Lance!, IG, IstoÉ e Brasil Econômico. Trabalhou na comunicação do Ministério do Esporte nos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e nos Jogos Rio 2016. Cobriu a Copa de 2014 pelo jornal O Dia do Rio de Janeiro.

Sobre o Blog

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