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Assediada por torcedor, repórter desabafa: "Me senti frágil, impotente"

UOL Esporte

14/03/2018 13h41

Mais uma vez, atitudes machistas atrapalharam o trabalho de uma repórter em noite de futebol. Dois dias depois de Renata de Medeiros, repórter da Rádio Gaúcha, reagir a insultos provocados por um torcedor do Internacional e ser agredida, outra profissional sofreu com o abuso de um frequentador de estádios. Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, realizava uma passagem próximo à entrada de São Januário quando levou um susto: um homem tentou beija-la na boca.

Imediatamente após a ação do vascaíno, que saiu sorrindo e se afastou da câmera assim que a repórter mostrou extremo constrangimento, Bruna lamentou o assédio ao vivo. "Isso não precisava, né? Não foi legal". Nesta quarta-feira, horas depois do ocorrido, a profissional da emissora carioca desabafou novamente, agora em conversa com a reportagem do UOL Esporte.

"Depois que terminei aquela passagem, eu me senti frágil, impotente. Já tinha lido relatos de amigas que passaram por este tipo de abuso nos estádios, mas nunca tinha acontecido comigo. Sentir na pele é muito diferente, você se sente muito frágil. Realmente não fazia a menor ideia de como agir em uma situação como essa", relatou Bruna, que identificou o agressor somente ao ver o vídeo.

A primeira reação, depois de desligada a câmera, foi de desespero. "Quando saí de frente da câmera, olhei em volta e tinha um monte de homem. Fui dando conta do que poderia acontecer comigo ali. Se um cara fez aquilo em frente a uma câmera, imagine com ela desligada. Ele não me respeitou em nenhum momento. Aquilo mexeu muito comigo, senti medo. Perdi um pouco da minha alegria", comentou.

Antes de conversar com a reportagem, Bruna usou as redes sociais para comentar sobre o assunto. Sem se importar "com banho de cerveja e torcedor pulando", a repórter se disse impotente com a atitude invasiva do torcedor vascaíno antes do duelo contra a equipe chilena. O clube de São Januário também emitiu um comunicado na noite desta quarta-feira.

Bruna Dealtry, que vai estar em ação neste domingo no clássico entre Botafogo x Vasco, acredita que a exposição dos agressores serve como a melhor arma para combater o machismo nos estádios – não só entre as profissionais, mas com relação a quem frequenta o ambiente futebolístico.

"Machismo está cada vez mais exposto. É deixar bem claro que isso nunca mais vai passar batido. Foi horrível ao me ver naquela situação, saber que meu marido, que me apoiou totalmente, viu também; é constrangedor. Quis expor isso para ele sentir vergonha. Com a exposição, tenho recebido muito apoio, especialmente da torcida do Vasco. Domingo estarei lá, da mesma forma, e tenho certeza que serei muito bem recebida", sentenciou a profissional do Esporte Interativo.

"A melhor maneira de mudar é o debate. Não tive vontade de xingar o cara em momento nenhum, queria era expor a situação e mostrar o quão ridículo o cara foi. As mulheres estão se unindo muito e fazemos questão de falar sobre o assunto. Isso não pode mais acontecer e não vamos mais deixar acontecer. Depois de ontem [terça-feira], muitas mulheres relataram que passaram por isso e estão motivando a falar sobre isso. Quanto mais falarmos, mais vão perceber o quanto é absurdo", completou a repórter.

O Esporte Interativo também se manifestou sobre o assédio ocorrido em São Januário, por intermédio de uma nota oficial enviada ao UOL Esporte na tarde desta quarta-feira.

"O Esporte Interativo lamenta o episódio em que um homem desrespeitou a repórter Bruna Dealtry, enquanto ela estava ao vivo, trabalhando, na partida entre Vasco da Gama x Universidad do Chile. Temos um time grande de mulheres trabalhando nas mais diversas funções, inclusive na frente das câmeras, e temos plena confiança na competência dessas profissionais que, nas ruas ou nos estádios, enfrentam dificuldades comuns da profissão. Não está entre as dificuldades de um repórter ser atacado no meio do trabalho, ser desrespeitado ou ser assediado de nenhuma maneira. Assim como a Bruna, ainda nos espantamos diante de uma brutalidade, mas não nos calamos. O Esporte Interativo é emoção, entretenimento e irreverência, mas faz tudo isso com educação e respeito. A nossa ideia é que a diversão seja para todos e não só para alguns. Ontem, ninguém se divertiu. Pedimos respeito a todos os profissionais, a todas as mulheres e que siga o jogo dentro das regras, confiando nas pessoas e no espírito esportivo."

O torcedor que assediou a repórter, no fim da tarde, usou também as redes-sociais para se desculpar sobre o ocorrido. Confira abaixo:

Por José Edgar de Matos
Do UOL, em São Paulo (SP)

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