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André Henning, do EI: "aqui não tem forçação de barra de emoção"

UOL Esporte

16/02/2016 12h05

AndreHenning-EsporteInterativo_Foto-Reproducao-Twitter

Presente desde o início do Esporte Interativo em 2007, André Henning acompanhou toda a trajetória do canal. Está lá desde os tempos em que a emissora era "apenas uma aposta", segundo o próprio narrador, até o atual momento de maior poderio de investimento, seja em novos canais, estrutura e compra de grandes eventos esportivos – o principal deles a Liga dos Campeões da Europa.

Filho do prestigiado jornalista Hermano Henning, maior influência do André na escolha da carreira, a principal voz do EI topou falar com o UOL Esporte vê TV. Confira:

Para você, que está desde o início, como é viver esse novo momento do Esporte Interativo?

É muito bom. Quando vim para o Esporte Interativo, no final de 2006, para colocarmos o canal no ar, éramos apenas uma aposta. Muita gente garantia que não sobreviveríamos seis meses, que éramos uns loucos. Mas é duro segurar uma turma tão apaixonada, competente e cheia de garra como a nossa. A gente trabalhou muito pra chegar onde estamos, e ainda temos muito pela frente. Estou orgulhoso pelo que conquistamos, mas continuamos na batalha.

No início, o EI era TV aberta. Com a entrada na fechada, de canais esportivos segmentados e público tão ou mais inteirado que quem transmite, sentiu que aumentou a exigência, sobretudo com futebol internacional?

Honestamente, não. A exigência sempre foi enorme, não aumentou agora porque temos mais distribuição na TV fechada. A gente sempre teve a preocupação com o conteúdo, com o conhecimento sobre, por exemplo, o futebol internacional que você citou. O público é exigente não apenas na TV fechada. É assim na aberta também. A gente se prepara do mesmo jeito, não dá pra dar mole. Faz parte da nossa vida profissional.

Não vê diferença entre narrar para público da aberta e na TV fechada, falar para o cara que torce pelo time de futebol e se comunicar com quem consome tudo quanto é modalidade esportiva?

Não vejo. As preocupações são as mesmas. Como narrador, a atenção no jogo é a mesma, o foco nas imagens é o mesmo, a preocupação com a audiência, com aquilo que está chegando na casa do telespectador, é a mesma. Essa diferenciação entre público de TV aberta e TV fechada é cada vez menor. No fundo, pra quem narra não tem diferença.

A exigência do telespectador é a mesma. O mesmo cuidado que eu tenho numa transmissão quando falo, por exemplo, com o torcedor do Flamengo ou do Bahia ou de quem quer que seja, eu tenho que ter em uma outra transmissão qualquer. Tenho que saber o que estou falando sempre que vou ao ar. A repercussão, quando envolve o time do cara, é que pode ser diferente. Se critico um time, um jogador ou um técnico, a resposta do torcedor, principalmente via mídias sociais, é imediata, a favor ou contra, independe.

Outros narradores do EI também adotam um tom de maior vibração nas transmissões, mas como você faz os jogos mais importantes, chama mais atenção. Falam que você grita, exagera na emoção, que se empolga demais por qualquer lance. Como encara esse tipo de reclamação?

Com naturalidade, afinal de contas nossas transmissões são diferentes mesmo. E sei que é uma novidade na TV, que poucos já fizeram do nosso jeito. Então, claro, vai impactar o cara que não está acostumado com isso, mas posso garantir que aqui não tem "forçação de barra" na dose da emoção. A gente narra, transmite aquilo que realmente estamos sentindo.

Nunca vou fingir uma emoção que não existe, não saio gritando do nada. Não tem aquele negócio do rádio de antigamente, de falar que é um lance de perigo quando a bola ainda está no campo de defesa. A gente não briga com a imagem, não inventa, é emoção pura, de quem é apaixonado pelo futebol, pelo esporte e que está sendo verdadeiro.

Se notasse aumento das queixas, mudaria o estilo de narrar, dosaria mais a emoção nos lances, tom da voz? Tem liberdade para isso ou fugiria muito do que deseja o Esporte Interativo? Aliás, existe um padrão a ser seguido pelos narradores?

Não existe obrigação nenhuma de se fazer nada. Esse estilo de narrar é hoje parte do DNA do canal, mas nunca sabemos o dia de amanhã. No entanto, enquanto o amanhã não vem, esse é o nosso jeito, é assim que gostamos e, imaginamos, a maioria dos telespectadores também.

No início da sua carreira, você foi narrador de rádio. Acha que isso fez com que carregasse um pouco da típica narração vibrante de locutores radialistas para a TV?

Claro, e foi por isso que o Esporte Interativo foi me buscar, foi um casamento perfeito. O rádio é uma grande influência na minha vida e tem tudo a ver com meu estilo de narração. Não só no meu, mas no de vários narradores do Esporte Interativo.

Quem é a pessoa mais importante na sua trajetória? Seu pai, Hermano Henning, teve participação na sua opção profissional?

Óbvio que meu pai tem grande influência na escolha da minha carreira e também na minha trajetória. Pra quem não sabe, ele também trabalhou no rádio esportivo no início da carreira e foi ele quem me influenciou a me apaixonar pelo rádio. Desde muito criança ouço rádio AM com meu pai. Agora, desde que entrei na área, tem muita gente importante que me ajudou. A família Kertész, que me deu o primeiro emprego lá na Rádio Cidade (hoje Rádio Metrópole) de Salvador, o pessoal do Esporte Interativo que apostou em mim para liderar a equipe de narradores do canal e que continua me dando a honra de ter essa responsabilidade todos os dias e espero que por muitos mais.

São muitas pessoas e não vou conseguir citar todas, mas se tivesse que apontar apenas um nome, esse seria o de Eder Luiz, da Rádio Transamérica. Foi ele que me deu chance no rádio de São Paulo, que me guiou nos anos de reportagem, que me orientou a me transformar em narrador e que me incentivou a topar o projeto "TV Esporte Interativo". Entre tantos bons tios que tenho, ele é o pai da minha carreira. Sou muito grato a ele e a todos.

Qual a sua narração mais marcante?

A mais marcante foi, sem dúvida, a do título mundial das meninas do handebol, em 2013. Um campeonato histórico, que só a gente mostrou. Jamais me esquecerei do dramático jogo das quartas de final contra a Hungria, da decisão contra a Sérvia, de cada detalhe daquele Mundial. Foi o ápice da minha carreira.

Lembra de alguma que não ficou tão boa, erros, gafes?

Foram muitos. Já narrei gol de um camisa 19 e falei o nome do 19 do outro time. Certa vez, estava tão focado numa transmissão que fiquei esperando jogadores cantarem o hino da Espanha, sendo que é apenas instrumental. Já troquei nome de times. Isso tudo uma hora ou outra acontece, não tem como evitar. Você está tão concentrado na transmissão por inteiro que, às vezes, erra no detalhe. O segredo é admitir o erro e tocar em frente. Não somos robôs, estamos longe de sermos perfeitos.

Quem é seu ídolo na narração esportiva?

Galvão Bueno na TV, e Osmar Santos no rádio. Os maiores entre os maiores.

Quem da concorrência você gosta de ouvir narrando atualmente? 

Pô, gosto de vários, mas vamos lá. Gosto muito, demais mesmo, do Luis Roberto [da TV Globo]. Acho o Everaldo Marques [ESPN Brasil] um baita narrador, meu amigo Gustavo Villani [do Fox Sports] vive grande fase. E, sem puxar a sardinha, sou fã dos meus companheiros de Esporte Interativo. Aprendo muito com eles. O Jorge Iggor, por exemplo, é um animal narrando, além de ser um sujeito da melhor qualidade.

E analista de futebol, quem você admira nos outros canais?

De novo, gosto de muitos, mas para citar apenas alguns: Casagrande, Mauro Beting, Juninho Pernambucano, Flávio Gomes, Osvaldo Paschoal. E, claro, não é da concorrência, mas sou fã do meu parceiro Vitor Sérgio Rodrigues, do Esporte Interativo. Sabe muito de todos os esportes, um cara completo.

Globo e Band têm apenas ex-jogadores comentaristas. Já na TV fechada muitos canais optam por um jornalista analista ao lado do boleiro. O que você pensa sobre isso?

Acho uma ótima combinação. Como diz o Muricy Ramalho, nós da imprensa não sabemos nem 20% do que acontece nos bastidores do futebol. Não sei se o número é exatamente esse, enfim, o ex-jogador, por ter vivido tudo isso, sabe um pouco mais desses detalhes que, normalmente, nos fogem. Então, acho bacana a junção de um jornalista com um ex-atleta. E eu ainda tenho a felicidade de ter Zico e Sávio ao meu lado nas transmissões dos canais Esporte Interativo.

O EI não tem os direitos da Olimpíada do Rio. Sente frustração por não poder narrar nesse evento?

Claro, todo profissional quer participar desses grades eventos, não seria diferente comigo, mas entendo que minha chance vai chegar. Já narrei no rádio (Atenas 2004) e, com muito trabalho, terei oportunidades na TV, também. Mas, mesmo sem os direitos, estarei presente na cobertura olímpica do Esporte Interativo, assim como foi em Londres, em 2012.

Como foi o 7 a 1 da Copa pra você? Estava trabalhando?

Estava trabalhando. Mesmo sendo um grande admirador/torcedor da Alemanha – o sobrenome Henning não me deixa esconder a origem da família -, senti vergonha, raiva, tristeza, decepção. Foi uma mistureba de sentimentos que não dá pra explicar. Aliás, acho que ninguém consegue definir bem o que sentiu naquele dia. E o pior: foi merecido tomar de 7, fora o baile. O futebol brasileiro estava colhendo o que vinha plantando há tempos. Que seja diferente daqui pra frente.

Rogerio Jovaneli
Do UOL em São Paulo

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