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Ele já substituiu Galvão. Hoje, Luiz Alfredo sonha em voltar à Globo

UOL Esporte

17/06/2015 06h00

luiz-alfredo

Luiz Alfredo tinha 38 anos quando narrou seu primeiro jogo de futebol – um tubo (jargão jornalístico usado para jogos narrados em estúdio) porque o som de Caracas (Venezuela), onde estava Fernando Solera, havia caído. É fácil imaginar toda a adrenalina do momento, todo o nervosismo, toda a ansiedade. É muito mais fácil se enganar. Não houve nada disso. Foi tudo normal, tudo tranquilo. Não havia novidades.

O mundo da narração esportiva era a casa de Luiz Alfredo. Geraldo José de Almeida, seu pai, foi um dos mais famosos narradores esportivos do país. Pelo rádio, narrou o gol de bicicleta de Leonidas da Silva no Pacaembu dos anos 40. Narrou o tricampeonato mundial em 1970. Narrou tanto que impediu o filho de seguir a mesma profissão. Luiz Alfredo o chama de Gera.

Não foi uma restrição emocional. Não foi a sombra do pai que o impediu de narrar. "Foi o velho mesmo. Ele não deixou que eu treinasse no São Paulo. E não deixou que eu narrasse. Filho dele tinha de estudar." E Luiz Alfredo estudou. Formou-se em engenharia na FEI, e, mesmo depois que a carreira decolou, manteve seu trabalho na Eletropaulo, onde se aposentou.

A voz de Luiz Alfredo levou o tetra aos brasileiros, como o pai havia levado o tri. Narrou o ouro de Aurélio Miguel em 88, a prata do vôlei em 84, o ouro em 92, a vitória de Senna sobre Prost, dias após a França eliminar o Brasil na Copa de 86.

Aos 69 anos, ele sonha com a volta. Literalmente. "Sonho que o Marcos Mora (diretor da Globo) está me ligando para voltar. Minha carreira foi muito boa, estive ao lado de gente maravilhosa e ainda tenho muito a contribuir".

A seguir, trechos da entrevista:

Geraldo José de Almeida, o pai

"O Gera me levava ao Pacaembu quando eu tinha sete ou oito anos de idade. Adorava ir com o velho. Eu me comportava muito bem, era o que meu pai exigia. Eu olhava mais os narradores do que o jogo. Ficava olhando o modo como cada um narrava. Olhava o gestual dos narradores de rádio. O Joseval Peixoto, por exemplo, puxava as orelhas. Ele fez rádio e televisão. A grande lembrança era a narração dele na Copa de 70. Aqueles bordões famosos tomaram conta do Brasil: 'por pouco, pouco, muito pouco, muito pouco mesmo'. 'O que é que é isso, minha gente'".

Ajuda aos exilados

"Eu sou engenheiro, formado pela FEI. Na época da Ditadura, eu era ligado à esquerda. Nunca fui de nenhum partido clandestino, mas alguns amigos eram. Eles me procuraram, pedindo ajuda para exilados brasileiros que estavam vivendo no México. Queriam mandar livros, dinheiro e alimentos. Perguntaram se meu pai, que iria narrar a Copa, poderia ajudar. Meu pai era da UDN, era um homem de direita. Mesmo assim, falei. Ele topou na hora. No dia seguinte, já tinha comprado uma mala enorme para levar tudo. E comprou goiabada para todo mundo".

Dupla com João Saldanha

"Na Copa de 1970, o Gera trabalhou com João Saldanha, que era comunista de carteirinha. Dois homens de caráter. João denunciava a Ditadura que existia no Brasil. Quando meu pai morreu, João foi ao velório e me chamou de lado. Disse que, após a morte, estava livre para contar uma história dos dois no México. Eles participavam de programas da televisão mexicana, iam a mesas redondas, escreviam em jornais e programas de rádio. Todo o dinheiro que meu pai conseguiu, ficou lá, com os exilados. O Gera era assim: estudou só o primário e nunca errou um verbo. Era da UDN e ajudou comunistas".

Início da carreira

"Meu pai morreu em 1976. Eu conversava sempre com ele sobre jornalismo. Nós tínhamos um projeto revolucionário para televisão. Em função deste projeto, o Paulinho Machado de Carvalho me convidou para trabalhar lá na TV Record. Acho que ele queria que eu desse continuidade ao trabalho do meu pai. Expliquei que nunca tinha narrado e que trabalhava – e ganhava bem – como engenheiro. Mas aceitei trabalhar de noite. Fazia pauta, reportagem, tudo o que podia. Em 83, tirei férias da Eletropaulo, e fiquei de stand by na cobertura dos Jogos Pan-Americanos. O narrador era o Fernando Solera".

Primeiro jogo

"O Brasil jogou com o Uruguai e o áudio não chegou. Era ruim o áudio lá e Caracas. O coordenador aqui era o Silvio Luiz. Ele não queria que eu narrasse nada. Quando ficou sabendo que não tinha áudio, veio correndo de casa só para que eu ficasse fora. Mas não deu tempo. Narrei o jogo e deu uma audiência muito boa. O Eli Combra era o comentarista. Tinha 38 anos e fiz minha estreia".

Bordão

"Nunca quis ter bordão. Seria uma desonestidade me aproveitar do que meu pai fez. Não abri mão do DNA, é lógico. O tom de voz era parecido, mas sempre procurei me diferenciar".

Globo

"Tive uma briga na Record e o dr Paulo me chamou. Disse que eu devia seguir meu caminho em outro lugar. Fui para casa e duas horas depois recebi um telefonema da Globo".

Estreia

"Foi no Maracanã, com um Palmeiras x Flamengo. Luciano do Valle estava na Band, eu na Globo e o Sílvio Luiz na Record. Os três narradores formados pelo dr. Paulo".

Copa de 1986

"A Globo apostou em Osmar Santos. Ele foi ser o primeiro narrador, o Galvão passou a ser o segundo e eu fui o terceiro. Houve muito bate boca, muita confusão, mas eu fiquei de fora. O Armando Nogueira era a favor do Galvão e o Boni a favor do Osmar. A verdade é que Osmar era um gênio no rádio, mas não era tão gênio assim na televisão. Não foi fantástico como no rádio. Osmar não precisava da televisão".

Cuba

Em 1984, logo que cheguei na Globo, estava na padaria e recebi um telefonema de Hedyl Valle Jr, que era coordenador. Ele pediu meu número de passaporte para mandar para a embaixada cubana no Panamá, porque eu iria para Havana narrar vôlei. Eu nem tinha passaporte, mas disse que no dia seguinte mandaria. Entrei em contato com um parente que era delegado de polícia e no dia seguinte, estava tudo pronto. Minha carreira estava deslanchando muito rapidamente e eu não estava preparado para coisas mínimas como passaporte;

Dr. Roberto avisa: Cuba é igual Araraquara

"Fiquei muito emocionado em visitar Cuba, um país que é minha paixão. Não vi defeito em nada. Para mim, é o melhor sorvete do mundo, melhor restaurante, não reclamava de nada. Falavam de dificuldade de transmissão, eu nem queria saber. Para mim, tudo era bom. Estava muito emocionado, uma coisa pessoal, para transmitir o jogo, quando de repente, Hedyl Valle Jr entrou na linha de transmissão e disse. 'Dr Roberto manda avisar que vocês estão em Araraquara e não em Cuba'. Ou seja, não era para mostrar muito entusiasmo, elogiar muito. Brochei um pouco".

Ayrton Senna

"No GP dos Estados Unidos de 1986, Ayrton Senna venceu e comemorou, pela primeira vez com a bandeira do Brasil. E como foi isso? O Brasil havia sido eliminado da Copa e eu já não tinha o que fazer. Fui fazer minha mala e recebi recado para voltar. O Galvão ia continuar narrando a Copa, acho que um jogo da Bélgica, e eu iria narrar o Senna, ao lado do Reginaldo Leme. Do México, offtube. Foi um presente para mim. A França havia eliminado o Brasil no futebol e o Senna derrotou o Prost. Dá para ficar quieto? Soltei a voz e arrebentei a boca do balão".

Chico Anysio

"Como eu disse do Osmar. O Chico é um gênio, mas comentando futebol quanto desta genialidade estará presente? Eu tinha uma certa mágoa com ele.  Ele havia começado a comentar futebol com meu pai, na TV Excelsior. Viajavam pelo interior de São Paulo e, antes dos jogos, paravam para almoçar. O Chico começou a dizer que ele pagava a conta naquela época. Mentira porque meu pai nunca permitiu que alguém pagasse a conta quando estava presente. Em 89, fizemos um jogo juntos. A Dinamarca venceu o Brasil por 4 a 0 e ele fez uma reclamação minha para o Boni. Nunca me falaram nada, nunca fui repreendido por isso. O Boni era um cara excepcional, nunca iria atacar ninguém. Ao contrário, ele defendia as pessoas. Saí da Globo porque o Sílvio Santos me chamou para o SBT em 90".

Telê Santana

"Era maravilhoso trabalhar com ele. Ele entende tudo de futebol e mostrava os caminhos para quem estava em casa vendo televisão. Ele era apaixonado pelo Roberto Carlos e gravou uma fita. Tocava o dia inteiro. Entrava no carro e já ligava. Reclamava muito do preço dos restaurantes. Trabalhamos juntos nas Copas de 90 e 94".

Mundial do São Paulo

"Em 92, eu estava na Globo e fui narrar o São Paulo no Mundial interclubes. Houve problemas de áudio e não consegui narrar o gol do Raí de falta, contra o Barcelona. Foi uma pena porque eu vi o gol nascer. Como narrador, nunca me misturei com jogadores e treinador, acho que cada um tem seu espaço. Mas o Telê me convidou para jantar. Eu, ele, o Cafu e o Raí. Aceitei. O Raí falou para o Telê que há muito tempo o time não fazia uma jogada ensaiada. Telê respondeu que não faziam porque não queriam. Que todo mundo estava livre para fazer. Então, no jogo, teve aquela bola rolada do Cafu para o Raí".

Aurélio Miguel

"Eu estava com o Moreno, ex-jogador de vôlei e comentarista. Como só havia um jogo à noite, fomos visitar a loja da Asics Tiger. Voltamos a tempo de trabalhar, mas já começaram os comentários . Diziam que eu havia ido passear. Então, fui punido. Me tiraram do vôlei e mandaram fazer o judô. Peguei informações na sala de imprensa e fui trabalhar. Conhecia o Aurélio Miguel lá do Clube Pinheiros. Sabia que ele estava muito bem treinado. Fui para o offtube, nada de quadra. E fui narrando as vitórias do Aurélio. Na terceira luta, já havia um monte de gente na porta querendo assumir o restante do dia. Mas não deu. E fui narrando a final. Vi que o Aurélio tinha um koka de vantagem. E, quando faltavam 40 segundos, comecei a dizer: são dois adversários, o alemão (Marc Meiling) e o tempo. No Rio, estava o presidente da federação carioca de judô e uns caras da retaguarda. Ficavam no meu ouvido falando que eu estava errado e que a luta estava empatada. "Não fala merda", eles gritavam. E eu firme, bancando. Terminou a luta eu grito que foi ouro. E o Aurelio ajoelhou. Voce acha que o Aurélio iria se ajoelhar para agradecer um empate?"

Prata no vôlei

"Foi absolutamente fantástico. Comecei a fazer vôlei em 84. Eu havia jogado um pouco e o Toninho Neves sugeriu que eu narrasse. Em 84, o Brasil já poderia ter vencido a Olimpíada, mas houve problemas internos na equipe. Briga de vaidades. Briga de anunciantes, Rio x São Paulo. Hoje, os jogadores negam, mas é verdade. Mas foi uma grande conquista. Perderam para aquele time fantástico dos EUA".

Ouro no vôlei

"Foi maravilhoso. Fantástico. Narrar ao lado de Bebeto, que tinha muito carinho dos jogadores. Ele havia formado aquele grupo. Quando ganharam o ouro, eles subiram até a cabine em que eu estava para homenagear o Bebeto. E o Luciano do Valle, na outra cabine, falava que a homenagem era para ele".

Abraço para dona Sussu

"Terminada a Copa de 94, o SBT chamou repórteres do todo o Brasil para mostrar a repercussão do título. Depois que todo mundo falou, voltou o comando para mim. Então, na hora da despedida, mandei um recado para Dona Consuelo, minha mãe. 'Bem, pessoal do Brasil, recebi ordem para terminar a transmissão. Então, vou pedir licença a vocês e vou homenagear a única mulher do Brasil que o marido narrou o tri e o filho narrou o tetra. Sussu, um beijo, mãe'".

Carlos Alberto Torres, eterno

"A Record não tinha os direitos de transmissão. Fiquei com Sócrates e Carlos Alberto na cabine de uma produtora. Não conseguimos entrar no centro de imprensa. Mas foi ótimo trabalhar com esses dois. Ficamos amigos, íamos sempre almoçar juntos. Estávamos andando os três em Paris e vieram três ou quatro garotos de 14 ou 15 anos. E ouvimos os gritos de Sócrates, Alberto. E Carlos Alberto ficou feliz. Estão me reconhecendo, falou. E eu respondi. Quando você foi campeão, eles não tinham nascido. Estão te reconhecendo porque você é eterno, seu porra…".

Sócrates ou Garrincha

"Sócrates era uma figura humana incrível, maravilhoso. Um Garrincha intelectualizado. Um cara que só fez mal a ele mesmo. Um cara de postura, um cara meio inocente. Dois passarinhos, Sócrates e Garrincha. Sempre fui fã de Garrincha até por questão ideológica. Ele tinha de ser tão lembrado como o Pelé. Mas o Brasil tem essa mania de escolher o número 1. Isso é coisa de americano".

Debate com Lygia Fagundes Telles

"Na TV Cultura, narrei a Copa São Paulo. Era uma audiência boa. Fomos vítimas de uma disputa interna do PSDB. Os puristas não queriam futebol. Fui a uma reunião do Conselho, à revelia. Perguntei a dona Lygia Fagundes Telles, um doce de pessoa. 'Dona Lygia, o futebol não pinta quadro, não encena uma peça, não escreve um livro, mas não é arte? É a maior arte popular do Brasil'. Acho que ela votou contra, apesar de haver ouvido meus argumentos".

Um teste na RedeTV!

"Foi meu recomeço. O diretor de jornalismo pediu que eu fizesse um teste. Nenhum problema. Faria 80 testes, não há problema para mim".

Mudanças na transmissão

"Quando eu comecei, você era julgado pelos telespectadores e pelo Boni. Hoje, está ao Deus dará. Dar emoção é berrar. Tecnicamente é um erro, porque o berro não é a voz natural. Hoje, berram muito. Galvão Bueno segue a carteira do Boni e é o melhor. Não vou dizer que não se fazem mais narradores como antes. Estou desempregado e vão pensar que estou com dor de cotovelo. Mas o Galvão de dez anos atrás é melhor que o de hoje".

Offtube

"Precisa dar emoção, precisa compensar a sua ausência no campo. Não adianta ficar reclamando. Eu sempre dei muita importância ao operador de áudio. Combinava com eles de colocar o som lá no alto, colocar a torcida na tela. Em 2008, aquela loucura que foi o Corinthians na Série B…Eu gritava…Fala, Fiel. O som subia….Era muito bom".

Perfil baixo

"Eu nunca quis brilho, nunca briguei por espaço, acho que sou muito low profile. Low profile não combina muito com televisão".

Luis Augusto Símon
Do UOL, em São Paulo

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