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Rede OM: a TV obscura que tinha Galvão e mostrou sozinha a Libertadores 92

UOL Esporte

10/12/2014 06h19


Hoje em dia as grandes emissoras de TV aberta e fechada encaram uma "briga de foice" para ver quem transmite os times brasileiros na Libertadores. No entanto, houve um tempo que pouca gente ligava, em que a competição ainda não exercia esse fascínio nos torcedores do país. A virada veio em 1992, quando a recém criada Rede OM comprou os direitos de exibição do torneio, dando a sorte de registrar a histórica campanha do São Paulo de Telê Santana.

A Libertadores foi uma das duas grandes cartadas da emissora baseada no Paraná. O outro investimento que mexeu com o mercado foi a contratação de Galvão Bueno. Na oportunidade, a estrela da TV deixou o posto de narrador número 1 da Globo em nome de um projeto para comandar o departamento de esporte da nova empresa.

GALVÃO FEZ ESTREIA NO DUELO SÃO PAULO x CRICIÚMA

Galvão Bueno aceitou o desafio da Rede OM para acumular os cargos de narrador, apresentador e diretor de esportes. A estreia oficial da estrela dos microfones aconteceu em 1º de abril de 1992, após uma campanha de divulgação em grandes jornais brasileiros. O contratado debutou com a partida entre São Paulo e Criciúma, válida pela fase de grupos, quando o time de Telê Santana derrotou a equipe comandada por Levir Culpi por 4 a 0.

Logo no começo da transmissão, o repórter Raul Quadros ouviu Telê Santana no banco de reservas. O cultuado treinador são-paulino fez questão de exaltar o "amigo" Galvão em sua estreia na nova casa. O primeiro gol do narrador na OM foi marcado por Raí.

RECORDE DE AUDIÊNCIA NA FINAL DO SÃO PAULO

As partidas da final entre São Paulo e Newell's Old Boys representaram o ápice da existência da Rede OM na rede aberta de TV. Em dois instantes, a emissora paranaense conseguiu superar a Globo em audiência na transmissão do primeiro jogo, na Argentina [no entanto, perdeu na média do horário].

Mas a apoteose viria no desfecho da competição. Mais de 105 mil pessoas estiveram no Morumbi na noite de 17 de junho de 1992, quando o São Paulo conquistou o primeiro de seus três títulos da Libertadores. Quem não foi ao estádio viu a final contra o Newell's pela Rede OM. Naquele dia, a emissora registrou 34 pontos de média de audiência [mais abaixo, assista ao pênalti que definiu a final].

"Eu ouvi atrás de mim alguém comentando, 38 pontos. Suponho que era de pico, uma audiência super expressiva", afirmou Roberto Avallone, comentarista da equipe da OM, que estava nas cabines do Morumbi.

Repórter da OM, Raul Quadros acompanha disputa por pênaltis ao lado de Telê

Em São Paulo, o sinal da Rede OM era transmitido pela TV Gazeta, emissora regional tradicional do Estado. Uma das estrelas da casa era justamente o comentarista e apresentador Roberto Avallone. Em campo, naquela noite, os repórteres eram Raul Quadros e Mário Jorge Guimarães (ambos hoje nos quadros do Sportv).

No comando da transmissão da OM, Galvão confessou a emoção ao ver o São Paulo campeão, com o gramado do Morumbi tomado pela torcida, na tela da novata TV: "eu, com tantos anos de estrada, as lágrimas vêm aos olhos. Porque é um trabalho importante (Rede OM), junto com essa conquista do São Paulo".

Com o sucesso do São Paulo, a Libertadores virou uma febre para times do Brasil a partir do ano seguinte. Em 1993 a Libertadores passou a ser exibida no país na tela da Globo, com mais um título de Raí e companhia – e com Galvão Bueno nos microfones.

"No ano seguinte a Globo adquiriu os direitos. Acho que as transmissões de 92 ressuscitaram o interesse da Libertadores por parte da TV", relembra Avallone.

"Ali eu soube o quanto ele manja do negócio. Foi um privilégio para mim. Muitas vezes fazíamos um ping pong na transmissão, ele como narrador, eu como comentarista (…) acho que o Galvão começou a voltar para Globo naquela noite. Realmente fez um trabalho estupendo, excelente. Conhece muito futebol", acrescenta o comentarista.

ESCÂNDALO ABREVIOU PROJETO DE ESPORTES NA OM

A Rede OM foi uma emissora criada no Paraná pelo empresário e político José Carlos Martinez, com o sonho de erguer uma TV nacional de relevância fora do eixo Rio-São Paulo. No entanto a aventura acabou durando pouco, prejudicada pelo envolvimento do proprietário no escândalo PC Farias, que derrubaria Fernando Collor da presidência do país [Martinez morreu em 2003 em um acidente de avião].

Em agosto de 1992, quando Luiz Alfredo narrava o ouro olímpico do vôlei masculino na Globo, Galvão via o projeto OM em declínio. José Carlos Martinez foi acusado de receber cheques "fantasmas" durante as investigações de uma CPI em Brasília – o dinheiro teria sido usado para pagar uma dívida com o SBT na compra da TV Corcovado, responsável pelo sinal da OM no Rio.

A OM então teve que trocar de nome para se desvincular do escândalo e acabou batizada de CNT. Mas antes disso a grande estrela do canal deixou a emissora. Galvão Bueno acertou o retorno à Globo em 1993, retomando as transmissões de Fórmula 1 e acabando com a carência dos fãs – na época a categoria era um fenômeno de popularidade.

Bruno Freitas
Do UOL, em São Paulo

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